Aruanã (GO)- Cocalinho (MT)
Mais um dia espetacular, céu azul espelhado na água do rio. No trecho até Cocalinho (MT), teremos a companhía de Cleomar, natural de Aruanã e atualmente trabalhando junto com a Dra Sonia na Secretaria do Meio Ambiente da cidade. Cleomar é mais um apaixonado pelo rio e sua natureza abundante. Ele explica sobre a "corrida dos peixes", ou seja, a corrida atrás dos peixes.
Nessa época do ano, os cardumes (pintados, matrinxãs etc.) começam a subir o rio após ter ficado nas lagoas marginais para reproduzir. Como o nível das águas já está abaixando e as lagoas ficando rasas ou secas, os peixes voltam ao leito do rio e nadam rio acima em busca de comida. Por lei, ninguém deve pescar a menos de 500 metros de um cardume, porém assim que haja notícia de um cardume (os pescadores colocam olheiros a postos na margem do rio para dar o sinal), a notícia espalha até Goiânia, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro e centenas de pescadores convergem no rio. Segundo uma senhora que entrevistei mais tarde em Cocalinho, "é uma tristeza de ver. Levam tudo. De um grande cardume de pintados que estava chegando há 2 dias, não sobrou nada..."
Com a erosão que a cada ano vai comendo as frágeis margens de areia, o rio está cada vez mais largo, ou seja, a água está mais espalhada e, por tanto, mais rasa. Passamos ao lado de um loteamento de bacanas, onde casas grandes tinham caídas no rio. Segundo Cleomar, apesar dos avisos sobre o risco do rio avançar com a retirada da vegetação, e tentativas de embargar a construção das casas, os donos tinham seguido em frente. Agora, restam os escombros enfeitando (melhor, enfeiando) o barranco e a água, e as margens ressecados, sem vegetação (veja foto acima).
Enquanto Gérard, Cleomar e eu descíamos o rio, Rejane e Itanor pegaram mais algumas estradas de terra no Land Rover, rebocando a carreta, e atravessaram o Araguaia de balsa para chegar a Cocalinho. Há uma ponte em construção, aparentemente para trazer de Mato Grosso o gado que será engordado no confinamento perto do Rio Vermelho.
Montamos o telão ao lado de um bar, na beira-rio, e inicialmente pensávamos que íamos falar para o rio, mas enfim chegou uma grande turma da escola, enchendo todo o espaço disponível. Houve um intercâmbio interessante, com perguntas que não esperávamos. Por exemplo, um aluno quis saber sobre o prejuízo que poderá causado ao rio pelo pilastras da ponte - se mudariam o curso do rio e a posição da praia - e onde iria ser jogada a terra escavada. Perguntas válidas. Não havia nenhum engenheiro civil na platéia para responder ao certo. Estou vendo que precisamos entender de uma grande variedade de assuntos - biologia, ictofauna, geologia, medicina, saneamento, engenharia civil, direito, agronomia - para encarar com firmeza as perguntas dos ribeirinhos, cada um com suas preocupações distintas.

