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Rio Grande
21/09 BARRA
Brasil das Aguas
Chegamos à foz do Rio Grande, em Barra, onde encontra o Velho Chico. Foto Margi Moss
Às 6h da manhã, estávamos na beira do rio aguardando sr. João nos buscar na canoa. Já na margem esquerda, onde o carro e a lancha dormiram, jogamos água, biscoitos e a tralha de sempre a bordo e preparamos para partir. Rejane iria com Marcelo no carro, porque presumíamos que assim chegará mais cedo em Barra para preparar tudo para a apresentação e porque tínhamos marcada uma audiência com Dom Luís, o bispo de Barra que luta pela preservação do Rio São Francisco.

Como, em linha reta, Jupaguá fica a 150 km de Barra, calculamos sempre o dobro para as curvas do rio. Estimamos uns 300 km navegando e não tínhamos noção de quanto tempo levaríamos. Tainara não hesitou em trocar o carro para o caminho do rio. Despedimos de Rejane e Marcelo, que teriam que voltar até São José, pegar a balsa e procurar uma estrada até a BR Brasília-Salvador.

Desde que começamos a navegar no rio, o céu estava sempre nublado à tarde. Hoje, amanheceu coberto. De um lado, isso nos poupou do calor escaldante, mas também tirou as cores da paisagem. Fomos descendo, seguindo nosso rumo errático pelo GPS. Ás vezes as curvas nos levavam em sentido oposto ao desejado.

O rio é habitado em toda sua extensão. Há alguma casinha em cada pedaço, seja de tijolo ou de taipa. Casebres humildes, sem nenhum luxo. Em cada canto, mulheres lavando roupa ou areando panelas na beira do rio; pescadores solitários em canoas de madeira beirando os aguapés onde os peixes buscavam refúgio.

Na minúscula Goiabeiras, tentamos comprar pão. "Só amanhã..." nos disseram. Enfim, no horizonte, surgia a Serra do Boqueirão onde o Grande encontra com o cristalino Rio Preto. Oba! Era ali que planejávamos "almoçar" nossos biscoitos e tomar banho de rio. O lugar é show: a serra, cortada pelo rio, sobe arredondada a cada lado, coberto por uma transparente camada de caatinga. Só na beira da água, alguns tons de verde. A correnteza do Rio Preto era fortíssima, mas as águas uma delícia, um pouco mais quentes que as do Grande, porém completamente transparentes. A vontade era ficar muito mais tempo curtindo aquela paz, mas ainda faltava um terço do caminho. Refrescado, voltamos a navegar.

A natureza no entorno do rio é cada vez mais árida. Antes de chegar a Barra, "atravessamos" mais uma serra, do Estreito, onde passa a grande ponte da estrada de asfalto. Finalmente, às 15.30, chegamos no porto de Barra. Pegamos uma amostra na foz do Grande esverdeado e outra no São Francisco barrento, passando ao lado da cruz que marca o encontro dessas águas, e encostamos na cidade. Após muito luta, conseguimos ligar para Marcelo, que chegara pouco antes. Tiveram que voltar até Barreiras para alcançar Barra, porque ao chegar em São José, ficaram sabendo que o rebocador da balsa tinha afundado na véspera! Realmente, não estávamos com sorte na questão de balsas.

No nosso encontro com Dom Luís, ficamos todos emocionados com seu astral, com sua calma determinação, sua sabedoria, fé e esperança. Ele é um exemplo. Às vezes, quando vejo a abrangência da destruição ao longo dos rios, me pergunto a que serve nosso trabalho se os próprios moradores não se importam com a realidade em sua volta. Mas uma conversa com Dom Luís é inspiradora e dá forças para continuar, para tentar ainda semear frutos de uma melhoria de atitudes, comportamento e respeito aos rios.

Na palestra à noite, a praça encheu de gente, muitos alunos. Mais uma vez, foi uma platéia entusiasmada e participativa. Depois, com João Rogério e Mauro, da secretaria do Meio-Ambiente, fomos comer uma moqueca e relembrar tudo que aprendemos ao longo do Rio Grande.


 
 
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