Pela manhã, tivemos que repetir a viagem pela mesma estrada poeirenta de volta ao rio – quase duas horas de viagem antes mesmo de embarcar no rio onde paramos na véspera. Seria a navegação do último trecho, até a foz. Estávamos novamente os três no barco: Elesbão, Gérard e eu. O rio era um espelho cada vez mais largo. O nível do rio, o Baixo Ibicuí, estava bem alto, porque ali ainda escorriam as águas das chuvas da semana anterior. Não víamos mais belos bancos da areia, apenas alguns pequenos começando a surgir.
Nos 100 km entre a balsa e a foz, passamos por apenas uma canoa de pescadores. Além do velho seu Jesusinho, pescador que encontráramos ao sair de Manoel Viana, em toda a extensão do rio não cruzamos com algum pescador em barco - um fato surpreendente se levar em conta que Rio Grande do Sul é o único estado onde a pesca não está regulamentada.
Apesar de ser um rio de grande porte que corta a metade do estado, poucas pessoas – mesmo nos municípios por onde ele passa – o usam para o lazer. Quando ele está cheio – época em que as águas são mais limpas em termos de qualidade –, tem uma beleza que se compara com o Araguaia.
Nos últimos 20 km, o leito do rio é imenso. Quando enfim surgiu a ponte de ferro, da aposentada ferrovia e por onde agora passa a rodovia com uma mão só de cada vez, sabíamos que estávamos chegando ao fim. O rio parecia um lago, batia um vento forte. Chegando à foz no bem barrento rio Uruguai, o GPS confirmou que a extensão do Ibicuí é 386 km, quase 100 km a mais do que tínhamos lido.
Coletamos as amostras em ambos os rios e demos meia volta. Tiago e Pedro nos esperavam perto da ponte, onde acharam uma rampa. E seguimos até Uruguaiana, onde uma faixa no portão do Iate Clube Tamandaré nos deu as boas vindas e fomos recebidos para um almoço por Roberto Basso, presidente do Comitê da Bacia, Mariza e outros colegas.
Seguiram discussões com respeito às repercussões da atividade arrozeira na quantidade e na qualidade da água do rio. Ao longo do Ibicuí, em especial, há esforços articulados para diminuir os impactos da lavoura no rio, visando uma trégua com a sociedade e o bom senso do gerenciamento dos recursos hídricos. Em geral, a condição da mata ciliar vai muito bem, mas algumas poucas fazendas terão que desistir de lavouras dentro das APAs nas margens do rio. Pelo sobrevôo que fizemos da região, a situação está bem mais crítica nas margens dos afluentes como o Santa Maria e o Cacequi.
De todos os rios percorridos até agora, ficamos animados com o reconhecimento dos moradores e usuários da importância de um Ibicuí limpo. O comitê dessa bacia deve ser o mais ativo, empolgado e atuante de todo o país! O desafio agora é emplacar o tratamento de esgoto nas cidades espalhadas pela bacia e investigar a fundo porque a qualidade das águas, mesmo na época quando não há extração para irrigação ou retorno dos arrozais, precisa de uma atenção especial.

