Mal pudemos acreditar que estava na hora de voltar para Brasília. Rejane partira na véspera de ônibus, ela tinha que estar de volta cedo e já aprendemos que a viagem leva muito mais do que "apenas 5 horas".
Na estrada, Gérard e eu ficamos pensando em tudo o que vimos e ouvimos. Nas reclamações dos ribeirinhos, o fato que mesmo na época das chuvas, o rio não sobe mais até onde subia sistematicamente. Apesar das alegações dos fazendeiros, que a irrigação não altera o rio, é uma simples questão de senso comum. Se desmatar as nascentes e matas ciliares, e depois tirar dos riachos milhões de litros de água, secando os brejos, obviamente haverá conseqüências negativas para quem mora rio abaixo.
Pensamos também sobre a pesca. Conversamos com muitos pescadores boiando em suas canoazinhas de madeira. Vimos seu desespero com os 'profissionais' - predadores que vêm de Bom Jesus ou Xique-Xique, que usam bombas de dinamite ou mergulham para pescar com arpão, deixando os ribeirinhos cada vez mais pobres. Um rio desses não é feito para sustentar os mercados de peixe de Brasília, Salvador ou São Paulo.
Enquanto isso, pelas janelas do carro, observamos os campos de soja e algodão na imensa planície que os fazendeiros adoram chamar de "Cerradão", onde não há nem sombra do cerrado. Deveriam chamá-lo de Abertão. Nas encostas da Serra Geral, as árvores nativas travam batalhas homéricas na suas mal-sucedidas tentativas de resistir aos fogos tocados, sistematicamente, todo ano, por alguns imbecis. Sempre agora, no início da primavera quando tudo está muito seco e muito frágil. Logo agora, quando as árvores nos presenteiam com seus coloridos mantos de flores, e que os pássaros estão construindo seus ninhos. Logo agora, quando a água está em falta.
Na beira da estrada, já em Goiás, paramos para fotografar essa queimada. Além da voracidade das chamas e o calor, o que mais me impressionou foi o explosivo estrondo emitido por cada árvore de porte que as chamas devoraram. O local nem era um desmatamento; era um pequeno trecho do cerrado, com toda sua rica biodiversidade, tentando sobreviver. Foi-se mais um pedaço. O que o idiota que tocou esse fogo ganhou com isso?
E assim, multiplicado por milhões e milhões de focos de incêndio espalhados por todo esse Brasil afora. Estamos apenas em setembro. Vem muito mais...

