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Rio Ribeira
6/11 IPORANGA
Brasil das Aguas
Iporanga, no Vale do Ribeira. Foto: Margi Moss
Antes de pegar a estrada para Apiaí, subindo a serra, descemos pela margem direita do rio por uma estrada de terra até a Vila Mota e a abandonada mineradora de Plumbum para coletar uma amostra. A Plumbum era uma importante mina de chumbo, ouro e prata que faliu há 10 anos. Até agora, as cidades rio abaixo suspeitam que casos de câncer comuns na população são em decorrência dos dejetos de metais pesados daquela época, e os resíduos que perduram até hoje. Mas agora reina a maior paz naquele pedacinho do vale - pequenas casas de agriculturas, pequenas vilas onde a vida parece ter parada naquela época quando bandidos eram personagens em filmes de faroeste. (Veja Link sobre a contaminação de chumbo no vale do Ribeira.)

A cada momento que percorremos dentro do Vale do Ribeira, olhamos para cima, para as montanhas intermináveis com suas mantas de florestas, cortadas por milhares de riachos de águas claras, e pesa no nosso coração a possibilidade de tudo isso ir pra água abaixo.

Enfim, pegamos a estrada até Apiaí, 30 km de subida por paisagens esverdeadas, e de lá descemos novamente, mais 40 km rumo a Iporanga. Essa estrada, então, é sensacional, uma trilha de terra batida passando pela Mata Atlântica virgem, que surge como uma catedral a cada lado. De vez em quando, abre um visual de tirar o fôlego, quando a gente desce do carro e respira aquele ar que é mato puro. Em todas as direções, árvores magníficas, carregadas de bromélias e do canto de pássaros escondidos.

Paramos em Bairro da Serra, 18 km antes de Iporanga, onde marcamos encontro com a Natalie, uma jornalista inglesa que veio acompanhar parte da expedição conosco. Ela trabalha para a revista Geographical, e também vai escrever sobre o turismo sustentável na região. Quando chegamos à Pousada Tatu, ela ainda estava conhecendo algumas cavernas do PETAR - Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira. Ela chegou logo e fomos com Bero conhecer a caverna Ouro Grosso. Ao entrar na mata densa, ouvimos um estrondo com se tivesse alguma cachoeira poderosa nas proximidades. Mas não: era um forte vento, como um vendaval, sacudindo as árvores. O céu ficou preto, alguns galhos já começaram a cair. Achamos melhor dar meia volta: ao sair da floresta, já estava chovendo. Voltamos correndo à pousada.

À noite, descemos até Iporanga, onde demos nossa apresentação na escola municipal para uma platéia - a maioria de adolescentes - que duvidávamos poder calar. Mas ouviram tudo em quase-silêncio até participaram com as perguntas. "As barragens vão secar nosso rio?" uma aluna quis saber.

Pergunta difícil de responder! Rio acima, o “rio” vai sumir, ser transformado num lago. Rio abaixo, também. E entre as múltiplas barragens, haverá minúsculas trechinhos que nem deveriam levar mais o nome “rio”. Até sair da região montanhosa e chegar na planície, onde não há como fazer mais alguma barragem. Aí, o rio vai voltar “ao normal” – dependendo da bondade e da necessidade das barragens. Em épocas de seca, as barragens vão reter certa quantidade para poder continuar rodando as turbinas. Na cheia, se a barragens estiverem cheias, não vão ajudar evitar enchentes.

Só fico pensando na miserável situação do Rio São Francisco após vencer as barragens de Sobradinho, Pedro Afonso, Xingó, Itaperica etc, etc. A quantidade de água que sobra para alcançar o oceano é tão pífia que em vez do rio entrar no mar, é o mar que entra no rio. Foi isso que ouvimos de ribeirinhos no Baixo Velho Chico. Em São Paulo, vai ser diferente?




 
 
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Mila Juns