Sabíamos que o dia seria longo. No pequeno hotel, onde haveria café da manhã às 6h, sem sinal de vida. O vigia-cozinheiro, um cara muito engraçado, ex-garimpeiro, correu para preparar tudo enquanto nosso José Luis fez o café. Primeira parada: a padaria para comprar sanduíche para o almoço. Onde estávamos indo, no alto da Chapada dos Parecis, não havia nem cidade, nem vila, muito menos um Bob’s.
Ao sair de Jauru em pleno sol, víamos a camada de neblina chegando de lá de baixo. A estrada que buscávamos foi de terra, boa, passando por paisagens bucólicas – pequenas fazendas, muito gado. Seriam uns 35 km até a UHE Guaporé, nosso primeiro acesso ao rio. O lago é pequeno – apenas 4 km de extensão, e a parede do vertente também é pequena. A água usada para as turbinas passa por outro lugar, um canal em paralelo até despencar 190 m por dentro da montanha!
Ficamos curiosos e seguimos a seta para a UHE – 5 km. Descemos uma estrada de terra bem ruim e lá em baixo, de portas abertas, estava o pequeno prédio de controle. Os dois funcionários de plantão nos deram as boas vindas e se esforçaram a mostrar e explicar tudo. Impressionante como uma pequena barragem como essa pode gerar 124 MW de energia fazendo tão pouco impacto ambiental. O tempo todo, fiquei lembrando o absurdo total da represa de Tijuco Alto planejado pela CBA no rio Ribeira, onde pretendem construir um lago de 52 km de extensão, inundar uma vasta área onde mora muita gente e há Mata Atlântica, construindo um muro vertiginoso de 142 metros de altura, fechando o vale – para gerar a mesma coisa – 128 MW – tão mais eficientes no Guaporé. Francamente, há lugares apropriados e outros não.
Voltamos à estrada e logo estávamos acima da Chapada. Plana, plana. No raio de 360 graus, só estendia uma baixa mata secundária de cerrado. Não passava nenhum outro veículo. Paramos na fazenda Alto Guaporé (de soja) para pedir orientações e mandaram seguir até a Fazenda São Paulo. Pelas fotos aéreas que tínhamos tirado, já sabíamos onde ficava a nascente. Já eram as 14h. Não conseguimos achar a sede da fazenda. Pulamos a cerca e andamos 2 km por uma trilha na mata até encontrar uma área pantanosa vazando água pra baixo. O começo do épico Guaporé. Catamos nossa amostra num riacho e voltamos a pé até o carro.
Agora, como fazer para voltar a Pontes e Lacerda? Uma opção seria fazer a mesma volta enorme por Jauru. Outra era arriscar indo no sentido oposto, acreditar na possibilidade de achar alguma estrada que conectava com a rodovia Cuiabá-Porto Velho. Desde que saímos da UHE e com a exceção da fazenda Alto Guaporé onde nos entramos, não vimos outro ser humano. Não havia quem perguntar. Mas não importava, o lugar é de uma beleza tão extraordinária, que andávamos felizes, nos sentindo literalmente no topo do mundo. Há várias reservas indígenas na Chapada, da etnia parecis. Dizem que eles tocam fogo no mato – havia incêndios imensos no horizonte – mas como eles não têm gado, não vejo porque precisaria de pasto verde.
Curtimos um belo pôr-do-sol lá no alto, sozinhos no mundo, e chegamos de volta a Pontes e Lacerda às 9 da noite. Um dia maravilhoso.

