Dormimos todos - Gérard, Mario, Tiago e eu - na sala da sede da fazenda. Quer dizer, alguns dormiram. Eu não consegui: quando desligamos a luz, os peões ainda estavam desquartelando o bezerro, ou seja, chegaram à parte onde quebram os ossos com um ‘machete’. Os cachorros brigavam para receber as sobras. Abaixo das palafitas da casa, os porcos grunhiam. Um galo começou a cantar às 3 da manhã. E a pequena filhinha da Angélica chorou quase a noite inteira, no quarto ao lado da minha rede.
Mas adorei tudo isso. Não queria dormir mesmo. Lá fora, o rio iluminado pela luz forte da lua. Estávamos num canto perdido da terra, pouca habitada, recolhidos sob o teto de um casal boliviano que nos recebeu sem hesitação – quatro pessoas estranhas que pintaram no seu quintal.
Lá pelas 7 da manhã, vimos uma chata de carga subindo pela outra margem do rio. Donald, o fazendeiro, levou Gerard na voadeira para pedir socorro. O barco (boliviano) estava subindo até Costa Marques e o comandante concordou em rebocar nossa lancha e nos invitar a bordo.
Ficamos felizes da vida. Amarramos nosso barco atrás, com mais duas voadeirinhas, e subimos no barcão como estivéssemos embarcando num transatlântico. O comandante Dennis nos apresentou sua esposa, Yanet, as duas filhas Yoli e Dani, e filho mais jovem, Moises, com uns 15 anos. Viviam a bordo na maior harmonia e felicidade. As filhas também sabiam pilotar o barco, estavam sempre sorrindo.
Enquanto Gerard aproveitou da rádio do barco para fazer novos contatos com Ecovale, em Costa Marques, e tentar saber o que houve na véspera, Tiago, Mario e eu subimos no telhado do barcão e sentamos no sol, felicíssimos de viajar a 6 km/hora, curtindo tudo sem vento, sem pressa. Gerard recebeu a confirmação que um barco tinha saído realmente na véspera, tinha alcançado a aldeia indígena de Ricardo Franco às 19h sem nos encontrar e voltara na escuridão. Mas já estava a caminho novamente.
Não nos importávamos mais com isso. Estávamos curtindo cada momento desse último trecho de navegação no Guaporé. A certa altura, duas ou três horas mais tarde, o barco foi interceptado por três lanchas do exercito brasileiro, com metralhadoras a postas e tudo. O comandante da operação mandou os bolivianos pararem, mas, coitados, eles estavam já com problemas de ignição e não quiseram desligar. Foi um pouco absurdo, a final, a velocidade máxima era 6 km/h, eles não tinham exatamente como fugir! Gerard conseguiu mediar para que deixasse em marcha lenta. Foi feito uma busca no barco e na papelada: tudo em ordem. Graças a Deus, não quisemos encrencas para essa família tão generosa conosco.
Nisso, nos chamaram para almoçar! Que luxo. Piranhas fisgadas de manha, bife, arroz, feijão... tudo. Que mordomia. Estávamos terminando quando chegou o Pelado na voadeira da Ecovale. Que pena, teremos que ir embora... Amarramos nossa lancha atrás da voadeira, cheios de dúvidas se ela ia conseguir ser mais veloz do que o barco boliviano. Mas sim, e nos despedimos dos amigos, subindo o rio a 19 km/hora.
Pelado (Francisco) é um cara bem legal. Coitado, tinha saído de Costa Marques na véspera, às pressas, sem casaco, e passara muito frio navegando no rio à noite. Tudo em vão, sem nos achar.
Eram 5 horas da tarde quando encostamos em Príncipe da Beira. Deixamos nossa lancha na margem para que Pelado pudesse ir mais rápido para Marques. Mario e eu fomos correndo visitar o forte com o que restava da luz do dia. É um lugar privilegiado com o mais belo pôr-do-sol do Brasil! Mas beleza sempre tem um preço. Ao escurecer, o ataque dos mosquitos é tão feroz que leva ao desespero. Eles não se importam com repelente, mordem qualquer coisa para ter sangue!
Enfim, chegaram Gerard e Tiago com o reboque, resgatamos a lancha doente e voltamos a Costa Marques, 38 km de estrada de terra bem ruim. Infelizmente, tínhamos perdido a palestra, e agora, com outra em Vilhena no dia seguinte, não havia nem como passar a noite. Fomos ao hotel, tomamos banho, recuperamos as bagagens e enfrentamos mais três horas de estrada horrível para adiantar o caminho. Mario, tão impressionado e emocionado ao conhecer o forte, resolveu ficar mais um dia para ter tempo de fotografar cada detalhe.
Pernoitamos em São Francisco do Guaporé (infelizmente, já bem longe do Guaporé).

