Parece que estamos viajando no Land Rover há meses. Saímos de Brasília na 5a feira no final do dia, dormimos em Araguari (GO). Na sexta, passamos 13 horas na estrada, nos enrolamos bastante na escuridão e na chuva para chegar ao maravilhoso Parque Estadual Intervales (SP)que fomos conhecer às 10h da noite só porque, ao chegar em Capão Bonito, vimos a placa e ficamos curiosos. No dia seguinte, descemos até Ribeira onde deixamos o barco guardadinho na Pousada do Zeca, e subimos até Curitiba para encontrar com Rejane e Tiago Iatesta, nosso novo expedicionário. No domingo, saímos cedo da cidade rumo a Cerro Azul, de onde pegamos uma estrada de chão e muito buraco até a chamada nascente do Ribeira, ou seja, onde o rio é formado pela confluência do Ribeirinha com o Açungui. Em Cerro Azul, disseram ser uns 25 km...mas foram 37. Ida e volta e desviando, uns 75. Próximo destino, voltar a Ribeira e Adrianópolis, cidades-irmãs separadas por uma ponte.
Seguimos o conselho de um simpático senhor: "é fácil," ele disse. "Porque subir a serra de novo? Peguem a estrada que vai direto para Adrianópolis, beirando o rio. É perto... sei lá, uns 30 km" Parecia perfeito. E no início, assim foi, seguindo o belo rio por uma ampla estrada de terra, escoltada pela majestosa Mata Atlântica. Pequenas casas, bem simples, a maioria de madeira, campos verdes onde as vacas pastavam na maior serenidade. Cenas bucólicas onde reinava a maior paz.
Andamos horas e nunca parecíamos chegar mais perto. Quando pedíamos informações, aquela frase de sempre "Podem seguir, não tem erro..."
Erro tinha sim. Muitos. O rio tinha sumido, estávamos subindo e descendo trilhas por vales carecas, onde já tinham derrubada recentemente as plantações de pinos e a mata nativa era coisa do passado: curvas sem fim. No GPS, Adrianópolis estava sempre a 20 km, independentemente do rumo que seguíamos procurando uma muito falada "estrada nova" para Rocha. Imaginávamos um caminho magnífico, terra preparada. Era uma descida de montanha quase vertical, parecia ter sido feita na véspera, nunca passara nenhum carro. No fundo do vale, enfim, achamos Rocha: um punhado de casas paupérrimas, muitas abandonadas. Só a igreja ainda estava caprichada. Uma ponte, um campo de futebol, e muita floresta nas encostas íngremes que surgiram do fundo do vale. Mas aí, já estávamos atrasados, estava escurecendo e ainda faltavam 30 km!
Mais tarde, me arrependi de ter passado batido por Rocha. Um lugar que vai sumir do mapa, junto com a magnífica floresta que veste aqueles vales. O campo de futebol, a igrejinha, as casas, a bela floresta vai ficar 99 metros abaixo da água. Depois de Rocha, voltamos a encontrar o Ribeira numa parte do vale muito estreita mas, puxa vida, que lugar espetacular. Se fosse a Costa Rica, turistas do mundo inteiro viriam aqui. E nós vamos simplesmente alagar essa preciosidade como se não tivesse valor! Porque nesse local, a Cia. Brasileira de Alumínio pretende levantar uma imensa barragem. Decisões tomadas em lugares distantes, em outras realidades, assinam uma sentença de morte sobre todo um ecossistema harmonioso onde vivem milhares de pessoas. É um dilema triste. Os que não perdem suas terras acham ótima a perspectiva de um emprego por alguns aninhos. Para os que têm que fugir das águas, a perspectiva é outra.
Enfim, chegamos em Adrianópolis e Ribeira. Na praça, o pessoal gentilmente nos esperava. Às pressas, montamos o datashow, projetando as imagens na parede da igreja, quando começar a chuviscar. Mudamos todos para dentro da igreja onde terminamos a palestra. A platéia foi carinhosa, o prefeito Jonas Batista bem prestativo e, exaustos, suspiramos aliviados.

