Uma das dificuldades para nossa equipe terrestre era obter informações confiáveis e recentes sobre a condição da estrada de terra que acompanha o rio pela margem esquerda. Já em São José, onde há uma balsa para atravessar, confirmaram que a melhor opção era seguir pela mesma margem até Jupaguá onde também havia uma balsa. Beleza, então. Combinamos encontrar com Marcelo e Tainara no povoado de Taguá na hora de almoço.
Lá fomos nós de novo, descendo o rio. Realmente, o Grande está precisando de alguns cuidados, um pouco de amor da parte de sua população ribeirinha. A mata ciliar está bastante destruída, principalmente para aumentar mais uns metros a área de pasto para o gado. E esse gado também é responsável para boa parte dos estragos porque, por falta de água nos campos, tem que descer barranco abaixa para beber - o que não é fácil para um animal pesando 400 kg.
Em volta de São José, há uma grande área ocupada por um faraônico projeto de irrigação chamada Nupeba, da CODEVASF, que foi concebido ao longo do vale do Rio Grande nos últimos anos da ditadura militar. A maior parte ou nunca foi realizado ou já caiu em desuso. Perto de São José, o projeto teve melhores resultados: a água é bombeada para pequenos lotes de 7 hectares, onde os agricultores plantam feijão, milho, mandioca, etc.
Em pleno rio, cruzamos com a Expedição Geraldo Rocha, um navio da Marinha (baseado em Bom Jesus) que estava subindo o rio também fazendo um trabalho com as comunidades, e os pescadores em especial. Demos meia volta e ficamos navegando ao lado durante 10 minutos. Como a saída de Barreiras foi difícil para nós, duvidamos que o navio pudesse chegar até a cidade.
Há muitos anos, Taguá era a cidade mais importante da região. Retém até hoje um charminho, mas outras cidades em volta já a ultrapassaram em tamanho e desenvolvimento. Almoçamos PF no 'hotel', o único restaurante do lugar, e seguimos mais duas horas pelo rio até a pequena Jupaguá, distrito da prefeitura de Cotegipe.
Num certo momento, paramos para conversar com seu Valdir e sua esposa Luzia. Estavam com três jegues na beira do rio, abastecendo uns galões com água. Sr. Valdir apontou para um angico afastado de uns 300 metros do rio. "Antigamente, a água chegava até o angico. Agora não mais. Olhem, posso quase cruzar o rio a pé..." e lá foi ele, indignado, pra dentro do rio, alcançando quase a metade da largura com água até o peito.
O trecho do rio que fizemos hoje foi bem curto - somente 54 km. Ficamos felizes de chegar ao destino cedo. Marcelo e Tainara chegaram cinco minutos antes. Lá, na margem, estava Marcelo. Mas pelo gesto que fez, entendemos logo. A balsa estava quebrada! O dono tinha ido para Barreiras comprar uma peça, a previsão de conserto era talvez o dia seguinte.
Passamos duas horas tentando resolver o dilema... o carro tinha que atravessar o rio de toda forma, para seguir depois para Barra. Voltar até a balsa de São José e descer pela outra margem levaria, segundo o que nos diziam os ribeirinhos, 4 ou 5 horas! Não dava tempo.
E se, usando a lancha, levávamos todo o equipamento até a cidade, dávamos a palestra às 19h, levava tudo de volta e acampava na margem esquerda? Ou dormia numa pousadinha (Jupaguá tem três 'pousadas', ou seja, lugares para pousar a cabeça à noite) e torcia para ninguém roubar o motor da lancha, ou mesmo a lancha inteira?
O vice-prefeito de Cotegipe, que estava na praia por acaso, ofereceu de usar a gaiola da prefeitura para rebocar a balsa e assim atravessar o Land Rover e reboque. Beleza, resolvido! Gerard embarcou na gaiola com a turma, Marcelo foi ajudar soltar a balsa... Mas o motor da gaiola pifou e lá foi ela descendo o rio! Uma hora mais tarde, Gérard chegou de volta a pé: não conseguiram virar o motor!
Já estava escurecendo e estávamos ficando sem opções. Em uma hora, teríamos que dar a palestra. Sr João, que mora na margem esquerda, oferecia um espaço no quintal para o carro, nos assegurava com respeito à segurança do barco e ainda nos levava na canoa de uma margem à outra.
Corremos até a 'pousada' (ou seja, a casa) da dona Elisa onde havia apenas 2 quartos, jantamos correndo e fomos à praça da igreja onde novamente aproveitamos o muro rosado. Uma grande multidão apareceu, o que era surpreendente visto que antes de chegarmos na cidade, ninguém sabia de nada. A prefeitura não havia avisado, conforme o combinado, porque não havia gasolina para o carro de som. No final, deu tudo certo, o som chegou e a população também. Mais uma vez, a criançada participou a plena voz durante a palestra. Ficamos satisfeitos por ter insistido em fazer a apresentação.
Depois, os prestativos rapazes do som estacionaram o carro em frente a um bar do outro lado da igreja e tentou estourar os tímpanos de todos os aldeanos. Felizmente, às 22h, tiveram que voltar a Cotegipe e o silêncio voltou a reinar sobre Jupaguá. Até os galos acordarem às 4h da manhã.

