Águas Futuras

Águas transparentes no baixo Tocantins. Foto: Margi MossO FUTURO DOS RECURSOS HÍDRICOS NO BRASIL

Prof. Dr. José Galizia Tundisi

Limnólogo, presidente do Instituto Internacional de Ecologia, São Carlos (SP)

A coleta e a análise de água realizadas pela tecnologia desenvolvida pelo projeto Brasil das Águas e as instituições associadas ao projeto promoveram um avanço considerável na visão geral e integrada dos recursos hídricos do Brasil, nas avaliações e observações que levariam muito tempo para apresentar um quadro geral e sintético se baseadas na metodologia tradicional. Essa tecnologia proporcionou pela primeira vez no Brasil, e praticamente em todo o mundo, um sistema rápido, eficiente e de excelente nível sobre a situação dos recursos hídricos. É verdade que as amostras foram coletadas apenas na superfície de rios, lagos e represas. No entanto, os corpos de água são coletores de informações locais e regionais provenientes das bacias hidrográficas e, portanto, a água de superfície representa bem essas ações se as medidas forem comparativas. Em um ano essa tecnologia proporcionou e promoveu uma visão conjunta dos recursos hídricos no Brasil e possibilitou análises comparativas fundamentais, úteis para futuros projetos de gerenciamento.

O Estado dos Recursos Hídricos das diferentes Regiões do Brasil


De um modo geral, as regiões hidrográficas dos rios Amazonas e São Francisco apresentaram pouca alteração especialmente no que se refere às concentrações de fósforo e nitrogênio. Ficou evidente o impacto das águas de origem andina nos rios Solimões, Madeira e Purus devido aos processos naturais de intemperismo das rochas. Na RH do São Francisco há regiões pouco impactadas, mas há outras muito impactadas, como o Rio das Velhas e alguns reservatórios do Rio São Francisco – Sobradinho, Itaparica e Xingó.

Todas as outras bacias das regiões hidrográficas apresentaram alterações, devidas, em grande parte, às ações antrópicas e às diversas atividades relacionadas com os usos múltiplos da água e do solo. Quais são essas ações? As observações e as condições realizadas com a tecnologia do Talha-mar mostram que os impactos das ações antrópicas podem ser classificados de acordo com os seguintes processos:

– atividades agrícolas: pecuária, agricultura intensiva, uso intensivo do solo. Essas atividades atingem principalmente o Rio Paraguai na região do Pantanal Mato-grossense e os rios Paraná, Uruguai e rios do estado de São Paulo (Tietê, Paranapanema e Rio Grande);

– urbanização: a conglomeração de áreas urbanas, em especial nas regiões hidrográficas Atlântico Sudeste, Atlântico Nordeste Oriental e Atlântico Leste, levou à deterioração dos corpos de água, especialmente a sua eutrofização, devido aos despejos de esgotos domésticos nessas bacias;

– desmatamento: associado às atividades agrícolas e ao progresso da urbanização, há intenso desmatamento em muitas regiões hidrográficas que afeta rios, lagos e represas. As fotos obtidas nos sobrevôos do Talha-mar mostram desmatamento de matas primárias e principalmente perda de florestas ripárias ao longo dos rios e represas;

– atividades industriais: podem resultar em degradação da qualidade das águas, e as várias e diversificadas indústrias de processamento de minério e mineração podem impactar particularmente certas regiões do Brasil.

Deve-se ainda destacar que o estado de conservação dos recursos hídricos observado em algumas regiões, especialmente na Atlântico Sul, é resultado da proteção e conservação promovidas por parques nacionais, o que justifica esses sistemas de proteção nas várias regiões do país.

De um modo geral, devem-se considerar três grandes regiões referentes aos recursos hídricos do Brasil – resultado dos trabalhos desenvolvidos com o Talha-mar:

– Bacias hidrográficas das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, com sistemas impactados pela concentração da população em áreas urbanas, lançamento de esgotos e áreas de intensa atividade agrícola.

– Bacias hidrográficas do Centro-Oeste, especialmente o Pantanal Mato-grossense, impactado por atividades agropecuárias.

– Bacias hidrográficas da região amazônica, impactadas por processos naturais sem grandes efeitos da ação antrófica.

Pode-se também afirmar que a intensa degradação dos corpos de água das regiões Sul e Sudeste e mais próximas do litoral deve-se à concentração da população e das atividades humanas nessas regiões, o que se dá há séculos e tem impactado os recursos hídricos. Deve-se também considerar que, como efeito desses impactos, as águas costeiras que recebem essas águas nos estuários estão sendo progressivamente impactadas e degradadas.

Projeções para o futuro dos recursos hídricos no Brasil

O Brasil é um país com enorme volume de recursos hídricos, que representam entre 12% e 16% das águas doces disponíveis no planeta Terra. Essas águas doces são um recurso estratégico para o país, pois, além de promoverem o desenvolvimento econômico e social, possibilitaram melhor qualidade de vida, diminuição da mortalidade infantil e melhor distribuição de renda. Porém, essas águas, se contaminadas, poluídas e degradadas, têm efeito contrário no desenvolvimento: diminuem a qualidade de vida, reduzem a disponibilidade de água, aumentam a mortalidade infantil e colocam em risco a segurança coletiva da população. Isso produz resultados econômicos adversos. O quadro demonstrado pelo projeto Brasil das Águas apresentou dados preocupantes: justamente nas regiões de maior concentração populacional há maior degradação. Pode-se também afirmar que as regiões mais ricas do Brasil, com maior PIB, são as mais impactadas (regiões Sudeste e Sul).

Para que esse quadro seja revertido, devem-se considerar algumas ações prioritárias e estratégicas:

– monitoramento: o projeto Brasil das Águas demonstrou que o monitoramento intensivo permanente e abrangente de todo o território nacional e dos recursos hídricos superficiais (e também de águas subterrâneas) é necessário. Esse monitoramento demandará ações dos governos federal, estadual e municipal e também da iniciativa privada. Diversas tecnologias poderão ser utilizadas;

– ações de conservação e proteção: sob a forma de parques nacionais, áreas de reserva e áreas de preservação ambiental (APA) são também fundamentais para manter recursos hídricos ainda preservados ou pouco impactados. Nessas áreas os processos naturais continuarão ocorrendo e darão oportunidade para manter condições comparativas adequadas para, inclusive, dimensionar os impactos com outras regiões;

– ações de recuperação e restauração: um investimento em recuperação de sistemas degradados é fundamental, especialmente nas regiões onde há maior concentração de população e maior risco. Tratamento de esgotos, aterros sanitários, tratamento de efluentes industriais, reflorestamento e preservação de áreas alagadas são fundamentais. Saneamento básico das áreas periurbanas das grandes metrópoles é também de relevância para o futuro;

– educação e conscientização das autoridades e da população: é necessário um amplo investimento em educação sanitária e em educação para o desenvolvimento da população, dando origem a um movimento de “nova ética para a água”. Esse processo educativo deverá ser cada vez mais amplo e abrangente para atingir todas as camadas da sociedade e, assim, dar uma participação mais efetiva à população no controle do futuro dos recursos hídricos;

– ações institucionais: a integração dos poderes públicos (federal, estadual e municipal) e da iniciativa privada na promoção de ações de preservação, recuperação, conservação e educação é extremamente importante, pois dará a continuidade necessária ao desenvolvimento das atividades. Deve-se também considerar que todas as atividades de monitoramento, saneamento básico, educação e restauração de recursos hídricos podem ser uma fonte importante de geração de emprego, renda e cidadania.

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